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Super mulheres e a endometriose: como a cannabis medicinal pode ajudar na batalha contra a dor

Março, mês das mulheres! Muito se fala da garra e da luta feminina em vários aspectos sociais. No entanto, a força feminina está também demonstrada no modo como as mulheres enfrentam a dor, seja ela psicológica ou física. Já ouvir dizer que as mulheres sentem mais dor em relação aos homens? Venha comigo analisar alguns dados.

Segundo um artigo científico publicado na revista Science Translational Medicine em 05 de fevereiro de 2020, as mulheres sempre sentiram mais do que os homens alguns tipos de dores que existem sem que a pessoa tenha algum tipo de lesão, como ocorre no caso das enxaquecas. São cerca de 35 milhões de pacientes com enxaqueca nos Estados Unidos, por exemplo, e três em cada quatro são mulheres. Além disso, em pacientes com fibromialgia, nove em cada 10 são mulheres; para a síndrome do intestino irritável, três em cada quatro são mulheres. Quando você soma todas essas mulheres com dor, isso proporcionaria um impacto enorme e importante nos cuidados médicos”, deixa clara a publicação.

Em relação à endometriose, no Brasil, uma em cada dez mulheres possui dor advinda dessa doença inflamatória. Considerando as proporções continentais e a densidade populacional brasileira, o sexo feminino representa aproximadamente 51,6% da população total, isso significa que cerca de 10 milhões de mulheres sofrem com a endometriose. Segundo especialistas, a doença é a principal causa de infertilidade e dor pélvica, sem falar nas complicações emocionais relacionadas.

Com números tão elevados, é de extrema importância que as mulheres que compartilham dessa condição tão prejudicial somem, aos seus já sintomas dolorosos das cólicas menstruais, insônia, menstruação irregular, náuseas e vômitos, dores durante as relações sexuais, dor ao defecar ou urinar; fluxo menstrual abundante, constipação ou diarreia, fadiga e exaustão e até infertilidade, colocando a qualidade de vida e o bem-estar da mulher em xeque!

ENTENDA O QUE É A ENDOMETRIOSE

No estado saudável, a cada mês, a parede interna do útero denominada endométrio dobra de espessura com o objetivo de acolher o óvulo fecundado e dar lugar à gestação. Esse tecido é formado por glândulas endometriais e um tecido de sustentação chamado estroma com muitos vasos sanguíneos. Caso a fecundação não ocorra, o óvulo é descartado e a camada espessada do endométrio descama e é expelida através do canal vaginal como menstruação. Esse ciclo se repete mês a mês, naturalmente.

No processo da endometriose, parte do produto endometrial que será expelido como menstruação segue um caminho diferente, retrógrado, passando pela parte superior do útero, tubas uterinas e cavidade abdominal, podendo ficar retido em cada um desses lugares ou se aderir em outros órgãos do abdome como os intestinos, parede externa do útero ou ovários e o peritônio. O tecido do endométrio fixado em locais errados passa a ser chamado de ectópico e inflama com as variações hormonais típicas do ciclo menstrual feminino. Quando o hormônio estrógeno atua nessas lesões ectópicas, faz com que se proliferem e produzam substâncias próprias da inflamação, os chamados mediadores inflamatórios, especialmente a prostaglandina E2 e aumentam o estresse oxidativo, favorecendo o crescimento e a sustentação do tecido ectópico endometrial e o aparecimento da dor.

 MULHERES DEVEM SER FORTES ATÉ NO MOMENTO DA DOR?

Obviamente, não! Mulheres fortes são aquelas que seguem em busca de informação a respeito da sua dor, conversam com seus médicos e conhecem as alternativas de tratamento. E uma possibilidade de alívio da dor relacionada à endometriose, disponível no arsenal terapêutico do especialista, com certeza, é o produto medicinal de Cannabis.

Como o Sistema Endocanabinoide – conjunto de substâncias sinalizadoras, receptores e enzimas específicas que trabalham em prol do equilíbrio e homeostase do organismo – possui milhares de receptores espalhados pelos tecidos do sistema reprodutor, ao tratar-se com fitocanabinoides (CBD e/ou THC), esses receptores serão ativados e gerarão os efeitos analgésico e anti-inflamatório, mostrados na literatura científica.

Entre os benefícios indicados estão a redução da dor, náuseas, vômitos e problemas gastrointestinais. Também se observa melhora na qualidade do sono e redução de sintomas como depressão e ansiedade. Outra vantagem do uso de canabinoides, é a redução média de 50% no uso de outros medicamentos, como os opioides e contraceptivos orais, comumente prescritos para pacientes com endometriose, mas com sérios efeitos colaterais.

Não deixe de conversar com seu médico sobre essa possibilidade terapêutica. Mulheres devem ser super-heroínas, sim, mas não devem suportar a dor. Cuide-se! O março amarelo está aí – mês da conscientização mundial da endometriose.

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Referências bibliográficas:

  • “The prolactin receptor long isoform regulates nociceptor sensitization and opioid-induced hyperalgesia selectively in females” by Y. Chen, A. Moutal, E. Navratilova, C. Kopruszinski, X. Yue, M. Ikegami, M. Chow, I. Kanazawa, S. S. Bellampalli, J. Xie, A. Patwardhan, K. Rice, H. Fields, A. Akopian, V. Neugebauer, D. Dodick, R. Khanna, F. Porreca. Science Translational Medicine 04 Mar 2020: Vol. 12, Issue 533, eabb4549. DOI: 10.1126/scitranslmed.abb4549 
  • Sanchez AM, Cioffi R, Viganò P, Candiani M, Verde R, Piscitelli F, Di Marzo V, Garavaglia E, Panina-Bordignon P. Elevated Systemic Levels of Endocannabinoids and Related Mediators Across the Menstrual Cycle in Women With Endometriosis. Reprod Sci. 2016 Aug;23(8):1071-9. doi: 10.1177/1933719116630414. Epub 2016 Feb 17. PMID: 26887427. 
  • Bouaziz, Jerome et al. “The Clinical Significance of Endocannabinoids in Endometriosis Pain Management.” Cannabis and cannabinoid research 2,1 72-80. 1 Apr. 2017, doi:10.1089/can.2016.0035 
  • Starowicz K, Finn DP. Cannabinoids and Pain: Sites and Mechanisms of Action. Adv Pharmacol. 2017;80:437-475. doi: 10.1016/bs.apha.2017.05.003. Epub 2017 Jun 20. PMID: 28826543. 
  • J Maia, BM Fonseca, N Teixeira, G Correia-da-Silva, The fundamental role of the endocannabinoid system in endometrium and placenta: implications in pathophysiological aspects of uterine and pregnancy disorders, Human Reproduction Update, Volume 26, Issue 4, July-August 2020, Pages 586–602, https://doi.org/10.1093/humupd/dmaa005

 

Escrito por Dra. Adriana Grosso

Medical Science Liaison, MSL, na HempMeds Brasil.